Eleições 2026: promessas sobram, falta explicar como
Falta pouco mais de um mês para as eleições. Os candidatos prometem melhorar a segurança, a saúde, a educação, a infraestrutura e a economia.
Nada disso os diferencia. Não existe candidato a favor da violência, do desemprego ou do mau atendimento nos hospitais. O que deveria distinguir uma candidatura da outra não é a lista de boas intenções. É o caminho escolhido para transformá-las em realidade. E é justamente aí que começa o silêncio.
Os candidatos descrevem os problemas, repetem números, culpam os adversários e anunciam prioridades. Mas quase ninguém explica o essencial: como pretende fazer.
Como financiará as promessas? Qual despesa será revista? Qual privilégio será enfrentado? Que medida depende apenas do Executivo? Qual é a lei? Qual precisa de uma emenda à Constituição? Em quanto tempo os resultados aparecerão?
Há duas explicações possíveis, e nenhuma tranquiliza. Ou os candidatos não conhecem a dimensão dos problemas, ou conhecem, mas evitam dizer a verdade porque o “como fazer” cobra escolhas, contraria interesses e pode custar votos. Prometer distribuir esperança. Governar distribui responsabilidades.
O Brasil trata sintomas
O Brasil se parece com um paciente cuja doença se espalhou por vários órgãos. Os sintomas aparecem na insegurança, nas filas da saúde, na baixa qualidade da educação, na infraestrutura insuficiente, no crédito caro e na perda de competitividade das empresas.
Em vez de enfrentar as causas, o país acumulou tratamentos emergenciais. Quando um setor perde rentabilidade, cria-se um incentivo. Quando o crédito desaparece, abre-se uma linha subsidiada. Quando surge uma nova pressão social, cria-se mais uma transferência. Quando aparece um gargalo, anuncia-se um fundo.
Para sustentar a atividade, recorre-se com frequência a mais crédito e mais endividamento. Famílias, empresas e o próprio Estado esticam seus balanços, sem que a produtividade avance na mesma velocidade.
A proteção social é indispensável e precisa ser preservada para quem realmente necessita. O problema começa quando a exceção vira regra, o benefício se torna permanente e ninguém mede o resultado. O Estado passa a administrar consequências, sem corrigir as causas.
A dívida tem um custo
O debate sobre a dívida pública não pode ficar restrito ao seu tamanho. Em junho, a dívida bruta alcançou 81,9% do PIB, ou R$ 10,8 trilhões. É um número preocupante. Mas o custo dessa dívida é ainda mais revelador.
Nos 12 meses encerrados em junho, os juros nominais do setor público somaram R$ 1,16 trilhão, o equivalente a 8,8% do PIB. Essa conta consome o espaço que falta para investir, pressiona o orçamento e torna o dinheiro mais caro para famílias e empresas.
Juros elevados não surgem do nada. Eles refletem inflação, desequilíbrio fiscal, incerteza e percepção de risco. Ao mesmo tempo, o excesso de crédito direcionado e subsidiado reduz a força de um dos canais da política monetária. Já as renúncias sem resultado estreitam a base fiscal e transferem a conta para quem ficou fora da proteção.
Não basta pedir ao Banco Central que reduza a Selic. É preciso criar as condições para que ela possa cair de forma sustentável.
Um pacto que comece na transição
Se os candidatos querem uma sugestão concreta, aqui está: o vencedor da eleição deve convocar, imediatamente após o resultado, um pacto nacional para enfrentar os problemas estruturais do Brasil.
Não precisa esperar para março. O presidente eleito tomará posse em 5 de janeiro de 2027. Os governadores, no dia 6. Deputados e senadores iniciaram os mandatos em 1º de fevereiro. Esse calendário não impede que a negociação comece ainda em 2026.
Antes da posse, o presidente eleito não governa, não corta despesas e não edita medidas provisórias. Mas pode constituir sua equipe de transição, conhecer detalhadamente as contas públicas, preparar os primeiros atos e negociar uma agenda com as atuais lideranças do Congresso, os partidos e os parlamentares eleitos.
Pode reunir governadores, representantes dos demais Poderes e órgãos de controle, respeitando a independência de cada instituição. Pode ouvir trabalhadores, empresários e especialistas. E pode apresentar ao país um programa para os primeiros 100 dias.
Esse programa deveria separar as medidas em quatro grupos: o que o Executivo pode fazer por atos administrativos; o que exige projeto de lei; o que depende de emenda constitucional; e o que cabe aos estados ou aos demais Poderes.
Cada proposta precisaria trazer prazo, impacto fiscal, fonte de financiamento, responsável pela execução e indicador de resultado. É assim que uma promessa se torna compromisso.
Menos exceção, menor custo para empregar
Uma das primeiras frentes deveria ser a revisão dos incentivos tributários. Não se trata de eliminar tudo de maneira cega. Há benefícios que corrigem desigualdades regionais ou estimulam atividades estratégicas. Mas nenhum incentivo deveria ser eterno ou sobreviver sem comprovar retorno à sociedade.
O Orçamento de 2026 projetou mais de R$ 600 bilhões em gastos tributários. É dinheiro que deixa de entrar nos cofres públicos. Cada benefício deveria demonstrar quanto gerou em investimento, emprego, produtividade e arrecadação. O que não entregar resultado precisa ter uma porta de saída.
Parte do ganho permanente obtido com essa revisão poderia financiar uma redução horizontal da carga sobre a folha de pagamentos. Seria uma troca fiscalmente responsável: menos privilégio para alguns e menor custo para todos os que empregam.
Os dados mais recentes mostram que o país tem 39,4 milhões de empregados com carteira assinada no setor privado, um recorde. Ao mesmo tempo, 38,8 milhões de brasileiros continuam na informalidade. São 37,5% de toda a população ocupada.
Reduzir o custo da contratação, simplificar obrigações e ampliar a segurança jurídica ajudaria a trazer parte desse contingente para a formalidade. Uma nova agenda trabalhista deve facilitar a contratação e a adaptação das empresas, sem retirar a proteção essencial do trabalhador.
Formalizar não é apenas assinar uma carteira. É ampliar a contribuição previdenciária, o acesso ao crédito, a proteção social e a produtividade.
Ajustar o Estado sem abandonar o cidadão
O pacto também precisa enfrentar as despesas. Não haverá credibilidade se todo ajuste recair sobre aumento de impostos.
É necessário revisar programas, combater fraudes, reduzir sobreposições, melhorar compras públicas e avançar em uma reforma administrativa. Essa reforma não pode ser uma perseguição ao servidor. Deve reorganizar carreiras, premiar desempenho, digitalizar serviços, eliminar privilégios e entregar mais qualidade ao cidadão.
Na área social, o caminho é preservar o amparo aos vulneráveis, melhorar a focalização e criar portas de entrada para o trabalho. O benefício não pode punir quem conquista um emprego formal.
Na segurança, também não basta prometer penas cada vez maiores. O criminoso precisa saber que será identificado, preso, julgado e punido. No caso do feminicídio, isso exige prevenção, cumprimento das medidas protetivas, inteligência policial e certeza da responsabilização.
Na saúde, é preciso integrar dados, fortalecer a atenção básica e administrar filas com metas públicas. Na educação, estabelecer objetivos de alfabetização, formação de professores e ensino técnico. Na infraestrutura, garantir segurança regulatória para concessões e parcerias com o setor privado.
É isso que significa explicar como.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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Matéria produzida com curadoria editorial assistida por IA, a partir de pauta de www.canalrural.com.br.